"Uns Braços" Narrativo ou Lírico?

Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa. Rejeitou a ideia logo, uma criança! Mas há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra ideia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim. (Machado de Assis, "Uns braços", in: Várias histórias, 1896) O trecho da obra de Machado de Assis “Uns Braços”, aqui analisado, não pode ser considerado como lírico, primeiramente, porque possui personagens nítidos, ou seja, “Inácio e D. Severina”, e todo o enredo volta-se à descrição de um curto cenário onde os personagens criados pelo autor desenham um sentimento amoroso. Inácio demonstra seus sentimentos a D. Severina, a qual “desconfiou de alguma coisa”, onde “recapitulava o episódio do jantar”. Essas observações caracterizam esse texto como sendo um conto, pois contêm poucos personagens, é curto, sucinto, possui uma única linha de encaminhamento temporal “naquele dia”, apresenta somente o necessário para sua contextualização de espaço “na rede” e “na sala da frente” e, não há uma conclusão declarada, deixando o leitor à vontade para interpretar o enredo. Mesmo havendo emotividade e afetividade, que são traços do lirismo, não possui uma voz centralizada, um “eu” que expresse seu próprio sentimento, mas há um narrador que descreve fatos que provoca ao leitor um efeito marcante.

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