Olhos d'água (crítica sociológica)



A crítica sociológica no conto "Olhos d'água", de Conceição Evaristo.



O conto trata sobre a vida de uma mulher negra, guerreira, batalhadora, mãe solteira de sete filhas, sofredora, pobre e chorosa. Assim, como a maioria das mulheres, esta, em especial, reflete a imagem de muitas que estão espalhadas por aí, silenciadas pelo excesso de trabalho, trabalho esse que é o meio pelo qual provém aos seus filhos o pão, o alimento, que não é suficiente e muitas vezes falta.

Em um tom poético, o narrador personagem retrata suas memórias e busca desesperadamente recordar a cor dos olhos de sua mãe, e indaga-se: será que sei a cor dos olhos de minha mãe? Esse fato nos faz refletir, que o narrador não se lembrava da cor dos olhos de sua mãe, por sempre estarem marejados, por estarem escondidos por trás de lágrimas, muitas vezes contidas, outras vezes externadas.

O conto “Olhos d’água” de Conceição Evaristo, nos mostra, por meio de palavras, a realidade vivenciada por muitas mulheres, que apesar das batalhas diárias que a vida as impõe, necessitam travar essa constante luta para sobreviver. A crítica sociológica contida neste texto expõe um espelho da realidade que mulheres negras e pobres experimentam. Está no dia a dia, na rotina... E que muitas vezes passa despercebida, por aqueles que não passam pelas mesmas situações precárias e subumanas.

O olhar triste desta mãe é exposto para que o leitor possa compreender que a sociedade mais fragilizada também possui sentimentos e não somente existe para servir, pois em meio a tantas dificuldades na criação de sete filhas, ainda há o carinho, o desejo por melhores dias, melhores condições de vida. Por trás de toda essa situação, há a falta de oportunidades que esta mãe não teve e que a levou a ser lavadeira. Por trás disso também está a falta de interesse do poder público em prover educação sexual, para preservar uma família pobre de ter vários filhos, já que as condições salariais não são as melhores, etc. Aí está o reflexo de mães faveladas que sobrevivem às custas de subempregos e que levam seus filhos a viajarem à outras cidades em busca de melhores condições de vida e enviar dinheiro pra casa, com o intuito de ajudar os familiares. Esse fato ocorre muito aqui no Nordeste. E, podemos notar que no final do conto a história se repete, pelos mesmos fatores sociais.

Pelo fato de ser um conto, nos sentimos comovidos pela forma que o narrador conta essa história, o que nos permite observar por outro ângulo, as atitudes dos outros, a maneira como se comportam e verificar que por trás de cada indivíduo existem emoções que muitas vezes não são demonstradas com palavras, mas através das expressões faciais, como as lágrimas, que podem demonstrar alegria ou dor, contentamento ou descontentamento, amor ou ódio.

Que como leitora, eu possa modificar meus pensamentos e abdicar de certas convenções impostas pela sociedade, que pobre não é gente. Pobre é gente, sim senhor! Se a intenção do autor foi passar um retrato fidedigno da grande massa social, para que assim, possamos compreender que o mundo não gira em volta dos mais afortunados, ele conseguiu. E esse é o papel da literatura, modificar pensamentos retrógrados e preconceituosos, para que a sociedade evolua moralmente e socialmente.

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