IRACEMA: ASPECTOS INDIANISTAS, NATURALISTAS E NACIONALISTAS

IRACEMA: ASPECTOS INDIANISTAS, NATURALISTAS E NACIONALISTAS 
IRACEMA: ASPECTOS INDIGENISTAS, NATURALISTAS Y NACIONALISTAS 

CARNEIRO, Jarina de Santana

O artigo aqui apresentado visa ampliar a compreensão dos aspectos romanescos referentes à obra de José de Alencar “Iracema”, pois essa obra traduz a história do povo cearense através de uma lenda, cujos aspectos serão aqui abordados e esmiuçados para identificarmos e termos uma noção não propriamente histórica (lendária), mas ficcional (romance) dos aspectos contidos nesta obra. Serão abordadas as características do estilo de época romântico, cujo autor faz questão de exaltar e que é um dos marcos do Romantismo nacional, identificadas pela figura indígena, a alusão às características naturais do país e o nacionalismo gritante transmitido pelo heroísmo aflorado pelo nativo de nossa terra. Aqui também abordaremos a opinião do autor Ivo Barbiere a respeito deste romance histórico que ficou marcado como sendo a obra que consagrou José de Alencar. Palavras-chave: Iracema. Romantismo. Indianismo. Nacionalismo. 

RESUMEN El artículo presentado aquí tiene como objetivo ampliar la comprensión de los aspectos románicos relacionados con el trabajo de José de Alencar "Iracema", porque esta obra traduce la historia del pueblo de Ceará a través de una leyenda, cuyos aspectos estarán aquí abordado y sombreado para identificar y tener una noción no exactamente histórica (legendaria), sino ficticia (novela) de los aspectos contenidos en esta obra. Se abordarán las características del estilo romántico del tiempo, cuyo autor hace un punto de exaltación y que es uno de los hitos del romanticismo nacional, identificado por la figura indígena, la alusión a las características naturales del país y el nacionalismo evidente transmitido por el heroísmo surgido por el nativo de nuestra tierra. Aquí también abordaremos la opinión del autor Ivo Barbiere sobre este romance histórico que fue marcado como obra que consagró a José de Alencar. 

Palabras clave: Iracema. Romanticismo. Indianismo. Nacionalismo.

 INTRODUÇÃO O romance, Iracema, é emblemático e idealizado na figura da personagem principal cuja história de vida simboliza as terras brasileiras outrora exploradas pelos europeus que a colonizaram. Iracema é a identidade brasileira vista pelos olhos daquele que a concebeu (José de Alencar) e, que representou na virgem e exótica índia, as belezas naturais e excêntricas de uma terra outrora inexplorada pelo homem branco, representado por Martim, e Moacir nascido em terras brasileiras, mameluco, representando o povo brasileiro originado pela mãe índia e pai português. José de Alencar, nesta referida obra, adotou o estilo lírico através da prosa poética, baseando-se na figura indígena e em aspectos naturais da época como a fauna e flora e o idealismo sentimental entre os personagens principalmente Iracema – a virgem dos lábios de mel. Nesta obra, Alencar, a partir de um fato histórico, relata de forma sublime a colonização do nordeste brasileiro, em especial o Ceará. Dessa forma, a partir da lenda em que o lusitano Martim se apaixona pela índia tabajara Iracema, ele explora, de forma artística, fatos da cultura indígena e dá origem ao romance que o consagrou, pois é o melhor exemplo de literatura indianista escrito na época e que marcou o romantismo brasileiro porque a cultura predominante é a indígena, porquanto o guerreiro branco não impõe seus costumes e sim, adquire os costumes da tribo, fazendo uma analogia entre Iracema e nossa terra mãe, que encanta e seduz o estrangeiro que nos visita e apaixona-se pela nossa amada terra, ficando por aqui. Também podemos ressaltar, nesta obra, que os traços românticos estão bastante expressivos, Pode-se observar no Romantismo, a introdução da narrativa em prosa que substitui a poesia clássica e Iracema foi escrito neste estilo, sendo assim, podemos notar as características românticas muito bem detalhadas, como é o caso da figura da mulher-anjo, pelas características encontradas na personagem Iracema, que é virgem, bonita, delicada, mas capaz de entregar sua vida pelo amado, mulher guerreira e de atitude e que se mistura a natureza como cenário poético e podemos ver aqui Iracema idealizada, pois é “[...] poderosa, inatingível, capaz de mudar a vida do próprio homem” (PROENÇA, 1978. p. 186). Também é possível observar subjetividade por não se caracterizar exclusivamente pela exaltação do eu, o sentimentalismo pelo estado emocional dos personagens, o escapismo onde mesmo em meio a um ambiente perfeito faziam uso de alucinógenos para saírem da realidade para um momento 3 de ilusão, enfim. Notamos que em Iracema o autor buscou transferir os traços românticos europeus medievais para a realidade de nosso país, onde não havia guerras clássicas, e de uma forma bastante nacionalista através da “Lenda do Ceará”, utilizando do argumento histórico que foi a colonização do Ceará no século XVII, criou o principal romance indianista de nosso tempo. 

1. O NACIONALISMO IMBUÍDO EM IRACEMA POR JOSÉ DE ALENCAR 

Para José de Alencar, as origens indígenas do Brasil são manifestadas através de características culturais e nacionais, revelando uma realidade desconhecida pelos europeus. Alencar evidencia no processo de colonização que os nobres portugueses, ao lado de aventureiros, cultivam no país novos hábitos, tradições e costumes que pouco a pouco se estendem ao índio. O nacionalismo é um sentimento que se apropria de cada indivíduo e representa a sensibilidade do caráter e costume dos brasileiros. Para Alencar, a renúncia, a dignidade, a altivez, a coragem, a valorização e importância da nacionalidade de um povo é um marco que não poderia ter sido esquecido. (BARBIERE, 2013. p. 33) cita em seu livro Iracema. Contemporâneo da posteridade? que “[...] o surgimento do romance no Brasil coincide com a história do despertar da consciência da nacionalidade [...]”. Daí, José de Alencar ser reconhecido por (PROENÇA, 1959) como “primeiro vulto da literatura nacional” (BARBIERE, 2013. p. 24). A narrativa deste romance expõe a história da bela indígena cativada por um guerreiro branco. Trata-se de um romance poetizado com o ritmo e a força própria inspiração, em que Alencar estabelece uma comparação do processo da colonização do Brasil pelos invasores portugueses e europeus, trazendo para literatura brasileira uma forte influência ao nacionalismo brasileiro, agregando novos valores para a cultura, apego as tradições nacionais, gosto por lendas, narrativas e heroísmo, o sacrifício e o amor nacional. Alencar transforma a tradição indígena em ficção misturando a realidade para descrever a inquietação em retratar sua terra e seu povo. Segundo (BARBIERI, 2013. p. 69) “A pátria independente carecia de uma literatura própria com temas, paisagens, personagens e linguagem novos”, daí o surgimento de Iracema, personagem que retrata as tradições e belezas naturais intrínsecas de uma terra inexplorada, e 4 que figura a transformação do processo de formação do povo brasileiro, com a mistura de índios nativos, brancos europeus, que fizeram parte da história brasileira composta por crenças, valores, atitudes, comportamentos, mudanças ocorrida na cultura, na língua e no espaço expondo os aspectos naturais e acentuados à paisagem da natureza, valorizando o índio, a cultura, a língua e os valores produzidos no processo de formação do Brasil. 

2. O INDIANISMO COMO MARCO NACIONAL 

Iracema, de José de Alencar, reflete um misto de sentimentos, e entre ele está o Indianismo como marco nacional, pois é através do índio que ele cria sua narrativa, poetizando a imagem de Iracema como guerreira assim como seu amado Martin. O Indianismo aparece como uma indicada da ideia e do avivamento de uma consciência nacional, por meio de uma literatura própria, brasileiríssima, desligada da literatura europeia, em que houvesse a preservação de um herói tipicamente brasileiro; neste caso, o índio. Quando se debate Indianismo, não denota ou decide apenas tomar como tema e assunto o índio e suas culturas, já que obviamente não seria inédito o fato de a figura indígena aparecer nos textos literários, a diferença está no fato de Iracema ser índia (mulher), mas não deixando de lado a fúria por salvar aqueles a quem ama a qualquer custo. A atmosfera lírica romanesca existente nesta narrativa está expressa pelo desejo de amor que Iracema sente por Martim, pois Iracema é idealizada como a heroína típica do romantismo, porque suporta dolorosamente a saudade do ser amado que partiu, e tem um profundo amor por sua terra. Podemos observar esse texto no fragmento citado: “Suspeitou Irapuã que fosse um ardil da filha de Araquém para salvar o estrangeiro, e caminhou direito à cabana do pajé. Como trota o guará pela orla da mata, quando vai seguindo o rastro da presa escápula, assim estugava o passo o sanhudo guerreiro.” (ALENCAR, 2010, p. 37). Também podemos encontrar nas linhas de Barbieri a menção de Iracema como heroína, bem esmiuçado em linhas analíticas a “Em dois traços rápidos, já nas primeiras páginas do livro, Alencar desenha, de modo precioso e inconfundível, o retrato físico da heroína[...]” (BARBIERI, 2013, p. 66). Aqui observamos que Iracema não está vestida para a guerra, mas é apresentada como “[...] a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais 5 negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.” (ALENCAR, 2010, p. 12). Tais fatores são capazes de nos fazer entender que além dos guerreiros propriamente ditos, identificados geralmente por homens fortes e vistosos (medievalistas), a figura de Iracema, vem contrapor essa identidade de guerra, pois a figura indianista é algo subjetivo, por se tratar de um romance, algo fabuloso, único e capaz de nos fazer enxergar que o índio está identificado como um povo protetor e capaz de amar e não como bicho ou ser irracional por não terem a cultura do branco europeu. Um fragmento define bem o instinto protetor da índia: “Iracema tudo sofre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; quando a machucam, azeda. Tua esposa não quer que seu amor azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel.” (ALENCAR, 2010, p.65). A língua indígena também é algo que simboliza muito bem as expressões contidas no romance como um marco nacional do indianismo, como as palavras Graúna, Juçara, ibiapaba, ocara etc. que enriquecem e marcam de um lado um vocabulário que ficou restito aos nativos, mas também por outro lado um vocabulário que até hoje faz parte de nosso cotidiano. Para (BARBIERE 2013, p. 100) “A tupinização da língua portuguesa atestada pela incidência no texto de inúmeros vocabulários de origem indígena é sinal que indicia o processo geral de miscigenação”. Fato que hoje podemos afirmar que não falamos propriamente o português de Portugal, mas o português do Brasil, envolto pela união de diversos dialetos e línguas nativas que compõem nosso falar. Está aí o fato de observar a grandeza do país não só em tamanho territorial, mas também cultural, pois a sua riqueza excede as pedras preciosas ou até mesmo os minerais. A riqueza do país está em sua população mestiça, mesclada de história, de rima e de prosa. 

3. A NATUREZA REFLETIDA NA OBRA DE JOSÉ DE ALENCAR

Podemos ressaltar que a busca pelo exótico e pela natureza são traços do estilo de época romântico. O narrador identifica que Iracema é tão bela quanto à natureza e que a natureza está integrada na personagem e que há uma idealização da terra nativa, inexplorada por estrangeiros que tornam ainda mais interessante a comparação entre a jovem e a natura. Podemos identificar tal situação no fragmento abaixo: “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como 6 seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.” (ALENCAR, 2010, p. 12) Para o Romantismo estilo de época no Brasil como na Europa, o culto a natureza é uma marca inerente e inseparável, pois os romanescos realmente tinham fortes tendências de capturar em suas obras o que de mais interessante a natureza podia oferecer como cenário. No caso de Iracema, o cenário paradisíaco estava no Ceará, onde as riquezas naturais da região são notadamente exuberantes, e o autor não poderia deixar de enaltecer sua terra natal. Apropriando-se de tais encantos e moldando segundo seu talento as imagens que figuram na mente daquele que aprecia a boa leitura, Alencar esmiúça cada detalhe com uma singeleza que encanta e, portanto, resiste ao tempo como obra maravilhosa. Neste romance, Alencar mostra situações e aspectos históricos que envolvem o momento histórico em que se passa a narrativa, ou seja, disputa entre as tribos dos tabajaras e dos potiguaras e o narrador não é mero observante, pois mesmo se tratando de uma criação artística em prosa, podemos percebe e identificar a quantidade de figuras poéticas, além da imaginação, das emoções e dos sentimentos, como em: "Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba..." (ALENCAR 2010, p.15). Podemos notar a presença de imagens poéticas serve para valorizar a beleza, a força e outras qualidades da índia, através das comparações, sendo também um estratagema para descrever a natureza magnífica e específica, fazendo alusão à fauna e à flora de nosso país. Como vemos no fragmento a seguir: "Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara, o pé grácil e nu, mal roçando alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas." (ALENCAR 2010, p.16) Fica manifestada durante toda a obra a finalidade de expor o valor dado aos fenômenos naturais pelos indígenas em seu cotidiano. Faz parte da cultura dos índios, a percepção da paisagem e os fenômenos naturais. Como vemos em: 7 "A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexem o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão." (ALENCAR, 2010. p.17) 

4. CONCLUSÃO 

Concluímos então, com esta análise, que, Iracema, romance rico e cheio de emoção, tem uma real importância para a literatura brasileira, assim como para acervo literário nordestino, pois encontramos nele, nossa origem e descendência por meio de uma alusão à história de nossos primeiros pais, mesmo que de forma lendária. Podemos tirar deste estudo aspectos que nos remetem as nossas origens. Percebemos que José de Alencar foi capaz de retratar em linhas sublimes tão grandiosidade em belezas naturais que outrora existiram e que infelizmente somente com tal literatura podemos resgatar. Belezas naturais inexploradas que ficaram armazenadas e que se eternizaram em suas linhas exuberantes. O autor propôs-se a contar-nos, através da lenda do povo cearense, de forma subjetivista e ufanista, a origem étnica do povo brasileiro onde o índio está integrado neste contexto através da fusão da sua cultura com a cultura europeia. O índio é um elemento essencial para a construção da identidade do Brasil, mesmo passando um por um processo de miscigenação de outros povos e de outras culturas, foi a partir dai que surgem as novas identificações culturais nacionais, fortalecendo assim os diversos acontecimentos marcantes, apresentando os aspectos naturais e relevantes à paisagem da natureza, valorizando o indígena, a cultura, a língua e os valores locais, além da glorificação de sua bravura e beleza, serviu para estabelecer uma imagem positiva para a nação brasileira, revelando os rumos pelos quais passou o processo de formação do Brasil. A exaltação ao nativo, a relação da identidade e do nacionalismo, associado aos conhecimentos relevantes para a construção de uma identidade nacional e da representação do brasileiro e ao seu espaço consagrando os ambientes nacionais, podemos concluir que Iracema é uma obra literária que sobreviveu ao tempo e que até o momento não está ultrapassada, pois nela podemos identificar as características mais nobres do Romantismo no Brasil como o 8 nacionalismo, indianismo e naturalismo, sendo que BARBIERI, 2013, ajudou-nos a ter uma melhor compreensão de como a obra surgiu e em que circunstâncias o autor José de Alencar escreveu o romance que o consagrou como escritor romântico. 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ALENCAR, José de. Iracema. 1. ed. São Paulo: Ciranda Cultural. 2010. 

BARBIERI, Ivo. Iracema. Contemporâneo da posteridade? São Paulo: É Realizações. 2013.

 PROENÇA FILHO, Domício. O Romantismo. In._____. Estilos de época na literatura. 5. ed.

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